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Hoje à noite não irei dar aula

Hoje à noite não irei dar aula

As marcas da minha história, as minhas vivências, minhas experiências e o olhar no ontem e no hoje, me tiram da sala de aula esta noite.

Deixa eu explicar melhor! Sou filho das entranhas do semiárido nordestino, do chão seco do cariri paraibano à beirada do Rio Paraíba.

Nasci e cresci inserido no contexto da agricultura de subsistência numa região que chove pouco e em pouco tempo do ano.

Quando me tornei adolescente compreendi a batalha cotidiana de meu pai e de minha mãe para dar condições de sobrevivência a uma família de sete filhos com um quarto de salário mínimo que ela ganhava como professora municipal.

As dificuldades eram muitas e as oportunidades eram poucas. Vi a fome de perto, na imagem de um monstro feroz atacando pessoas iguais a mim e as levando ao sucumbimento; vi a fartura de longe, nos extratos da sociedade que sempre deu nutrição para o monstro.

E aí, vejo a sabedoria de Josué de Castro em “Geografia da Fome”, ao dizer que falar da fome é um tabu em nossa sociedade. “Trata-se de um silêncio premeditado”.

Vi a educação pública com qualidade, quando era para poucos, para aqueles dos extratos sociais que ignoram a fome; vi a educação pública para muitos, sem qualidade, para aqueles das classes sociais esquecidas, ignoradas.

Vi homens, dentre eles meu pai, a revirar a terra seca da caatinga com enxadas e chibancas em troca de alguns tostões nas “Frentes de Emergência”; vi muitos desistir desse flagelo e sair no mundo tentando encontrar outro mundo de menos injustiças sociais.

Nos termos de Raquel de Queiroz em “O Quinze”, numa “aventura” em busca de vida, vi muitos não voltarem.

Vi a Universidade Pública como um filtro social, destinada para alguns privilegiados. Vi-me chegando a ela como uma exceção à regra, pois, na regra do sistema, vi a maioria dos meus amigos de infância não avançarem do ensino fundamental ou do ensino médio.

Vi o Nordeste ser taxado de região de miséria, de atraso, de sub-humanos; vi humanos fechando os olhos para os modelos sociais injustos, que sempre produziram as mazelas e as misérias da nossa sociedade.

Pois bem, a partir do início deste século, os olhos que viram tudo isso, viram também a esperança, viram os sonhos deste povo, com a eleição de Luiz Inácio LULA da Silva. E eis que sonhos começaram a se transformar em realidade.

Vi a redução da pobreza em todo o país, especialmente no Nordeste, pois, vi o combate á fome ser enfrentado como nunca havia sido, reduzindo as desigualdades sociais a patamares nunca alcançados.

Vi o aumento real do salário mínimo, a redução da dívida publica, os investimentos em diversas áreas, o aumento do consumo das classes mais baixas e o crescimento do emprego.

Vi a expansão universitária com investimentos grandiosos, com aumento das vagas nas universidades e vi os Institutos Federais chegando aos mais longínquos recantos do semiárido, oportunizando educação técnica/média e superior de qualidade para quem nunca teve oportunidade alguma.

Vi o pobre e o negro entrando na universidade.

Vi o negro começar a ter direitos no país que sempre lhe negou o devido lugar. Vi o Nordeste crescendo e a miséria caindo.

Vi a luz desmanchar e escuro e clarear a falta de vergonha naqueles que sempre se omitiram ao enfrentamento dos problemas sociais.

Vi a água jorrar nas cachoeiras do Paraíba e serpentear o semiárido nordestino transformando realidades, refazendo os sonhos, gerando sorrisos, trazendo vida. Em fim, vi outro país, vi outro Nordeste.

É como se houvéssemos encontrado o outro mundo, aquele mais justo, aquele que sonhamos, aquele que queremos.

Mas, as “elites do atraso”, nos termos de Jessé de Souza, que sempre alimentaram o monstro da fome, que simbolizaram uma libertação de escravos mas jogaram os negros a própria sorte nas ruas, que sempre se locupletaram com as desigualdades sociais e com a miséria, levantaram suas vozes e, a partir de 2014, construíram uma trama narrativa de anticorrupção, inviabilizando o governo da presidente Dilma, que culminou com o golpe de 2016, iniciando-se assim, o processo de desmanche de todas as conquistas sociais e econômicas alcançadas com os governos progressistas.

Para não ter risco de uma derrota eleitoral em 2018, setores da elite política e judicial completaram o golpe com uma prisão arbitrária do ex-presidente LULA, operação que recentemente foi desmoralizada por todos os organismos nacionais e internacionais de justiça.

Todo esse arranjo, que tirou do povo brasileiro em 2018 o direito de escolher aquele que foi o melhor presidente do país, contribuiu para a vitória do candidato Jair Bolsonaro, que foi deputado desprezível eleito pela milícia carioca por 22 anos.

Logo se constatou o sujeito tosco, preconceituoso, ignóbil e incompetente que ele é.

O resumo do seu governo nesse período é de um desastre, uma tragédia na economia, na saúde, na cultura, na educação e em todos os demais setores.

A fome, a miséria absoluta, o desemprego, o ódio, a antidemocracia voltaram. Agora novamente LULA se coloca como opção.

E hoje estará em ato público em Campina Grande, cidade que tem segurança hídrica com água nas torneiras graças à transposição de águas do rio São Francisco, feita por LULA; cidade que teve os maiores investimentos federais na gestão dos governos progressistas; cidade que tem a grandiosidade do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia, trazido no governo LULA. Então diante de todo esse quadro, ser neutro, como disse Chico César, é ter o lado do opressor. NÃO.

Eu não sou omisso, eu não sou neutro. E na condição de educador crítico, compreendendo os golpes que a democracia tem sofrido e os riscos maiores pelos quais ela passa, vendo os retrocessos diversos na educação em todos os níveis, vendo a indiferença com a miséria e os discursos de ódio que emergiram, entendo que hoje tenho que ir ao ato com Luís Inácio LULA da Silva.

Teremos outras oportunidades para os lemas, teoremas definições e atividades da aula de Matemática que seria hoje.

A aula de hoje tem uma conjuntura muito maior.

E, se nos omitirmos dessa urgência democrática, talvez não tenhamos outra oportunidade.

Um abraço fraterno

Luís Havelange Soares Professor do IFPB – Campina Grande

 

 

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