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Liberdade Vigiada

Liberdade Vigiada

O projeto de segurança instalado no Campus de João Pessoa, do IFPB, parece ter saído de uma obra futurista de ficção científica. Entretanto, as técnicas adotadas pelo projeto só tem a aparência de futuristas, já que utilizam recursos tecnológicos modernos da engenharia e da comunicação, mas na verdade recorrem à estilos de vigilância projetados no século XVIII.

O diretor do Campus de João Pessoa mandou instalar câmeras digitais em locais estratégicos da convivência e circulação de servidores e estudantes, o que lhe dá a condição, ou a fantasia, do controle interno total da instituição.

O projeto é totalmente antipedagógico e autoritário, já que retira a privacidade das pessoas dentro da instituição. Desta forma, qualquer gesto emitido ou postura adotada no interior do Campus estarão sendo obervados: ao caminhar displicentemente pelos corredores ao pátio da instituição você estará sendo observado (a) pelo olho eletrônico do gestor.

A instituição deve zelar pela segurança interna das pessoas e pelo patrimônio da instituição sem que, para isto, seja preciso violar direitos civis, a exemplo da privacidade gestual, postural e o direito à livre locomoção. As câmeras devem ser utilizadas para vigiar o entorno do prédio e a entrada e saída de veículos e pessoas.

O projeto de segurança do Campus de João Pessoa parece uma cena trasladada da novela de George Orwell (adaptada para o cinema), 1984, na qual o escritor faz uma crítica ferrenha aos regimes de opressão das décadas de 30 e 40 e a todos os projetos de nivelação da sociedade, que buscam reduzir as pessoas a peças ou instrumentos visando ao controle social total.

As tentativas de controle total das pessoas também recebem inspiração de uma estrutura arquitetônica concebida para as prisões no século XVIII pelo filósofo Inglês e teórico social Jeremy Bentham: o Panopticon. O conceito do Panopticon é permitir que um observador possa observar (ópticon) todos (pan) que estejam reclusos em uma instituição sem que eles sejam capazes de perceber que estão sendo vigiados. Bentham concebeu o plano como sendo igualmente aplicável a hospitais, escolas, asilos e manicômios. O panopticon é, segundo o próprio Bentham, “um novo modo de obter poder da mente sobre a mente, em uma quantidade até então não atingida”.

O projeto é totalmente antipedagógico podendo estimular mais o “voyeurismo” do que as práticas civilizadas da convivência e sociabilidade. O voyeurismo é a prática da observação de um indivíduo pelo outro, sem que o observado tenha consciência disso; geralmente, é praticado com o auxílio de binóculos ou câmeras.

Como se não bastassem esses exageros de segurança dentro de um ambiente acadêmico, neste semestre o diretor do Campus adotou um sistema de fechaduras eletrônicas nas salas de aula da instituição. Professores e alunos estarão reclusos em celas fechadas durante os 40 minutos da aula, é o professor que terá a senha digital para fazer abrir o sistema. O projeto é excelente para prisões e totalmente inadequado para ambientes acadêmicos. Mais uma vez a gestão do Campus ataca, acintosamente, a liberdade de ir e vir dentro da instituição. Será que os pais dos alunos aprovam esse comportamento? A escola não tem a obrigação de formar cidadãos livres e conscientes, porque o apanágio às restrições individuais no que concerne ao que é mais sagrado na vida das pessoas: o direito à liberdade de ir e vir e à gestualidade?

As novas metodologias educacionais primam pela criação de ambientes agradáveis que estimulem a liberdade e a criatividade dos aprendentes e dos ensinantes. Nesse sentido, os gestores do Campus de João Pessoa estão carecendo, urgentemente, de uma atualização dos seus conceitos sobre educação e processo de produção do conhecimento. É preciso decidir se estamos em uma escola ou em uma prisão; as duas instituições tem objetivos antagônicos na sociedade: uma pune a outra educa para o exercício pleno da cidadania.

Coordenação do SINTEFPB

 

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