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“E daí?”: a Semiótica sobre o discurso necropolítico

“E daí?”: a Semiótica sobre o discurso necropolítico

Imagem: Valter Campanato / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

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Por Alexandre Simão de Oliveira Cardoso

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Conhecido provérbio africano diz: “Não importa se você és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr”. No último dia 28/04/2020, a intensidade da reafirmação necropolítica[1] brasileira, a estratégia do fazer-morrer e da negação da vida potencializada pelo discurso emanado pelo Presidente da República talvez tenha atingido seu gradiente máximo. Fomos dormir – para aqueles que conseguiram, claro – após vermos e ouvirmos o chefe máximo do Poder Executivo, quando indagado por uma jornalista acerca da superação de mortos pelo novo coronavírus pelo Brasil em comparação com a China, enunciar: “e daí?”. Tal fato é público e notório. 

O Sol despontou e a aurora do dia reclama a nós, brasileiros de altivez, que não há outro caminho frente aos acontecimentos políticos nacionais senão começarmos a correr para agir, imediatamente, antes que a necropolítica governamental termine de mover todas suas engrenagens para alcançar seu objeto de valor maior: terminar por ditar quem deve morrer. Porque esse “e daí?” propalado aos quatros ventos pelo Presidente da República significa muita coisa.

Tal intencionalidade, não sejamos ingênuos, está dita e enunciada, não é de hoje, na discursividade do atual Governo Federal e concentrada, em sua maior parte, nos pronunciamentos e ações do Presidente da República. Dezenas de ataques e ameaças de toda sorte, desde o primeiro dia de governo até o presente momento, foram lançados sobre minorias e movimentos sociais, toda e qualquer oposição, jornalistas, memória de pessoas mortas e desaparecidas em consequência do regime militar, até atingirem, enfim, a própria democracia e a ordem constitucional brasileira (dias atrás fomos açoitados pelo “Eu sou a Constituição”), amalgamando uma narrativa destrutiva em intensidade e extensidade. Diante de fatos tão aviltantes e perigosos à continuidade do regime democrático brasileiro, um olhar com viés semiótico nos ajuda a destacar analiticamente desta discursividade política nefasta todo esse programa narrativo de violência estatal estrategicamente moldado. Afinal, tamanho ultraje discursivo não pode ser encarado apenas como uma patologia do Presidente da República, “um modo de se expressar que lhe é próprio” ou qualquer outro eufemismo que visa esconder aquilo que se pretende pôr em prática e que cada vez mais emerge do subterrâneo: a decisão de quem deve morrer.

Debruçando-se sobre esse discurso macabro composto apenas por esse “e daí?” presidencial, é que a Semiótica[2] tem como petição de princípio[3] tomar objetos empíricos para proceder sua análise, não se sobrepondo ou pretendendo substituir disciplinas próximas, mas, ao revés, interagindo e visando, em franca dialogia, estabelecer pontes com as mais variadas áreas do saber humano. Nesta ordem de ideias, é que o arco teórico trazido pela Semiótica e, notadamente, a semiótica do poder (poder-fazer e poder-ser)[4], reveste-se de ferramental profícuo para esmiuçar dentro do discurso postodito enunciado, as estruturas da significação que podem “projetar, a partir da análise do aqui agora, as formas possíveis do amanhã”.[5] 

Daí questionarmos: diante do que temos assistido, qual amanhã se mostra projetado? Do discurso do “e daí?” do Presidente da República, no qual se manifesta a máxima desumanidade em relação à dor alheia, a morte do outro, retirando e colocando no esquecimento o luto daqueles que perderam seus entes e amigos por conta do vírus, categoricamente se prenuncia a real possibilidade de caminharmos para um amanhã pior e mais deletério que o presente, na qual cada vez mais o poder constituído decide quem irá viver e quem irá morrer. Naquilo que a semiótica discursiva denomina de nível profundo do percurso gerativo do sentido, a questão está mais do que posta e transitará, justamente, pela relação de oposição vida morte. E principalmente: a depender da escolha do Presidente da República, a decisão já está tomada e apontará para o caminho do extermínio do outro. 

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Fonte: justificando.com

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Notas:

[1] Necropolítica é um termo cunhado pelo filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe, professor da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo. Revisitando o conceito de biopolítica de Michel Foucault e se aproximando da leitura de Giorgio Agamben, entre outros filósofos, sugere Mbembe que o ponto máximo de soberania está alicerçado no poder de ditar quem deve viver e quem deve morrer. Seu ensaio homônimo foi publicado no Brasil pela editora n-1 (MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3. ed. São Paulo: n-1 edições, 2018). 

[2] Aqui vista sob o enfoque da École de Paris, cujo principal responsável foi Algirdas Julien Greimas. 

[3] LANDOWSKI, Eric. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. São Paulo: EDUC/Pontes, 1992, A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica, 1992, ps. 58-59).

[4] GREIMAS, Algirdas Julien. Sobre o sentido II: ensaios semióticos. Tradução de Dilson Ferreira da Cruz São Paulo: Nankin: EDUSP, 2014.

[5] LANDOWSKI, Eric. O olhar comprometido, in Galáxia: revista transdisciplinar de comunicação, semiótica, cultura. Programa Pós-Graduado em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. São Paulo: EDUC, 2001, p. 21. 

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