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• SOCIEDADE | O assédio não é uma paquera exagerada, mas uma ação sem consentimento, afirma filósofa.

• SOCIEDADE |  O assédio não é uma paquera exagerada, mas uma ação sem consentimento, afirma filósofa.

Ato de mulheres no Distrito Federal, em dezembro: a ascensão do feminismo incomoda inclusive algumas mulheres
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

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Matéria retirada na íntegra do site: Carta Capital. (cartacapital.com.br)

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“Entender um ‘não’ é o que marca a diferença entre paquera e assédio”
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“Este 9 de janeiro tivemos direito a um ‘#Metoo é legal, mas….’. Nada realmente novo nos argumentos utilizados. Encontramos os mesmos argumentos no texto publicado no Le Monde e no trabalho, em torno da máquina de café, ou em refeições familiares. Esta tribuna é um pouco o colega incômodo ou o tio cansativo que não entendem o que está acontecendo”, é o que diz um trecho do manifesto publicado por um grupo de feministas francesas na quarta-feira (10) e traduzido pela filósofa Tatiana Roque.

“Temos o direito fundamental de não sermos insultadas, assobiadas, agredidas, estupradas. Temos o direito fundamental de vivermos nossas vidas em segurança. Na França, nos Estados Unidos, no Senegal, na Tailândia ou no Brasil: este não é o caso hoje. Em nenhum lugar”, diz o manifesto, assinado por dezenas de ativistas no jornal independente Médiapart, em reação à carta aberta assinada por Catherine Deneuve, Catherine Millet, Elisabeth Lévy e uma centena de mulheres no jornal Le Monde na terça-feira 9.

Já para a editora da revista Causeur, Elisabeth Lévy, signatária da carta aberta, esse movimento (feminista) coloca todos os homens no mesmo saco. “Vivemos um período de histeria coletiva que tenta nos fazer acreditar que todos os homens são porcos”, denuncia a polemista à RFI.

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Um puritanismo que leva, segundo ela, à vitimização das mulheres: “Nós fizemos um século de feminismo, um século de luta pela igualdade, para terminar como uma pequena coisinha de porcelana quando um cara lhe diz: ‘Eu vou fazer você gozar’. Eu não quero viver neste mundo! “, argumentou, em defesa do texto que assinou junto a uma centena de mulheres.

A tradutora do manifesto em resposta, Tatiana Roque, filósofa e professora da UFRJ, ex-diretora do programa do Collège International de Philosophie e membro da equipe dos Archives Poincaré, em Paris, concedeu a seguinte entrevista à RFI para contestar a carta aberta:

RFI – Qual foi a sua reação ao ver a carta aberta ao jornal Le Monde?

Tatiana Roque – Eu fiquei um pouco indignada, para falar a verdade, porque me parece um retrocesso em relação a todos os direitos e a toda a repercussão que o movimento contra o assédio e o movimento #Metoo teve, principalmente no Globo de Ouro, e então parece uma reação a isso, uma reação conservadora, de retrocesso em toda a visibilidade e a tomada de consciência que mulheres e homens estão tendo sobre este problema.

RFI – Você acha que o fato de elas terem publicado a carta na esteira dos pronunciamentos do Globo de Ouro, no domingo 7, sobre o movimento #Metoo foi intencional, para polemizar mesmo?

TR – Eu acho que esta repercussão toda [do #Metoo] incomodou muito o establishment e provoca reações de quem está de certa forma ligado ao modo antigo de ser da sociedade, e o machismo estrutural afeta mulheres e homens. O fato de serem mulheres [a escrever a carta] não impede que seja também uma reação a estas mudanças, porque são mudanças que perpassam a relação patriarcal, as relações do machismo, mas também perpassam as relações do racismo e outros tipos de preconceito contra grupos que antes não tinham muita visibilidade.

Então, não é tão estranho assim que mulheres que são mais ligadas a uma esfera de poder, que sempre tiveram muita visibilidade, se incomodem, porque eu acho que as outras mulheres que manifestam indignação contra o machismo hoje, contra o assédio, contra a violência sexual, elas se aproximam de certa forma do lugar das pessoas negras, do lugar dos imigrantes, e isso incomoda.

RFI – Você citou um certo conservadorismo, mas a carta aberta delas aponta justamente o perigo do conservadorismo que o movimento feminista atual poderia trazer ao tentar censurar obras de artistas como Egon Schiele, Balthus ou mesmo uma retrospectiva de Polanski. Você acha que o fato de muitas das signatárias terem participado do movimento de liberação sexual, especialmente o Maio de 68 em Paris, privilegia esta visão de que conservador é quem tenta impedir a sexualidade de caminhar livremente?

TR – Primeiro eu não acho que seja censura denunciar o machismo, mesmo em certas obras de arte, ou o racismo. Não é censurar, é explicitar relações que antes eram naturalizadas e que já não passam mais despercebidas. Então, colocar estas manifestações, estas reações a algumas obras de arte, como sendo uma censura eu acho bem complicado, eu acho uma distorção.

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E o fato de algumas destas mulheres terem participado do movimento de liberação sexual, acho que só mostra que a luta contra o machismo hoje, o feminismo – e eu sempre gosto de colocar no mesmo pé a luta anticolonial, a luta contra o racismo, a luta pelo direito dos imigrantes – como que a gente está vivendo está numa nova fase, que não é mais exatamente aquela que já se viveu no movimento de liberação sexual, eu acho que hoje é uma coisa muito mais profunda, porque diz respeito às relações sociais e ao próprio lugar que a Europa e os países centrais ocupavam em relação ao resto do mundo.

RFI – Você traduziu para o português o manifesto publicado no Médiapart em resposta à carta aberta ao Le Monde. Você concorda com a resposta e por quê?

TR – Eu concordo com a resposta, porque acho que ela mostra como algumas formulações, que são aparentemente inócuas, são uma tentativa de calar o movimento feminista e as denúncias ou a forma como estas denúncias estão sendo feitas pelo movimento feminista.

Tatiana Roque
Tatiana Roque: consentimento é o conceito central do debate (Foto: Arquivo pessoal)

Acho que estas denúncias estão incomodando tanto que é natural que isso provoque reações, mas acho que estas reações vão mesmo no sentido de tentar calar estas indignações, da forma como elas vão aparecendo hoje, e de certa forma recolocar as coisas no trilho, como elas eram antes.

Mas isso não tem jeito. Então, o que eu gosto mais do manifesto é isso, é este tom de: “não tem volta”. Esta mudança é inexorável. É normal que provoque reações: podem gritar, podem espernear, mas não tem volta.

RFI – As signatárias da carta aberta criticam o fato de o mundo estar ficando muito binário, mas elas mesmas abrem a carta dizendo que o estupro é um crime, mas a paquera insistente não; qual é o limite entre paquera e assédio?

TR – Eu acho que tem uma frase no manifesto que eu traduzi, da qual eu gosto muito, que diz que a diferença entre paquera e assédio não é uma diferença de grau, é uma diferença de natureza. E no modo como aparece na carta [ao Le Monde] fica parecendo que o assédio pode ser apenas uma paquera um pouco mais intensa, um pouco mais insistente.

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E elas deixam claro na resposta que não é bem isso: a diferença está entre o consentimento e o não-consentimento, entre produzir incômodo e não produzir incômodo. Tem o enunciado feminista que ficou muito conhecido nos últimos tempos que diz: “não é não”. Entender este “não” como um “não” é o que marca a diferença entre paquera e assédio. Ninguém quer interditar a paquera, de jeito nenhum, mas o fato de colocar o assédio como sendo só uma paquera exagerada é uma incompreensão de que existe um ponto de demarcação entre as duas coisas que é o consentimento; que é a produção de incômodo ou não.

RFI – E nas artes, que elas também citam na carta aberta como sendo afetadas pelo “puritanismo feminista”, qual seria a diferença entre denunciar e censurar?

TR – A decisão sobre uma obra de arte continuar exposta ou não é das instituições, do Estado, não é das pessoas que denunciam. As pessoas podem denunciar o quanto quiserem. Se aquela instituição ou o Estado decidirem manter, eles podem manter. Imagine se as mulheres ou os negros ou os imigrantes ou as pessoas que lutam contra a discriminação têm o poder do Estado? Acho que dizer isso é igualar de certa forma o poder destes movimentos ao poder do Estado, o que é uma injustiça, porque obviamente nem se compara.

RFI – Você acha que esta reação das mulheres que assinaram a carta aberta, que vai na contracorrente do feminismo hoje, prejudica as conquistas do movimento feminista?

TR – Acho que não afeta as conquistas do movimento feminista. Acho que estas reações são compreendidas enquanto tal, ou seja: algo que provoca reação é algo que está forte. A gente tem muito a impressão de que há um crescimento do machismo, do racismo, do conservadorismo, mas eu costumo dizer o seguinte: piorou porque melhorou.

Então é um pouco isso: estas reações que tornam o machismo ou o racismo ou algumas manifestações mais radicais são também alguma reação ao fato de que o mundo mudou de forma inexorável e isso não tem volta, esta percepção é muito forte dentro dos movimentos sociais, e provoca reações, é normal, mas não tem volta. A carta aberta indica um conservadorismo, um reacionarismo, é desnecessária, mas faz parte, faz parte da mudança e é claro que essa transformação vai causar muita reação.

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A trágica urgência em combater o feminicídio

Por Maria Izabel Azevedo Noronha

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Para Izabel Noronha, debate sobre as questões de gênero e a luta para combater e punir toda e qualquer forma de machismo precisam ser priorizadas nas escolas

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Segundo a ONU, sete em cada 10 mulheres são ou serão vítima de violência.
Imagem: sem crédito – do site cartaeducacao.com.br
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O assassinato da escrevente Simone Lanzoni em Sorocaba, interior de São Paulo, no dia 3 de janeiro,  revela já nestas primeiras semanas de 2018 que a violência contra a mulher e o feminicídio continuam rotineiros no Brasil. A escrevente de 46 anos era filha de uma ativa líder sindical, a ex-dirigente da APEOESP e professora Abigail do Amaral Maduro. A professora, falecida em agosto de 2014, foi a primeira secretaria de Assuntos dos Aposentados do Sindicato dos Professores, e era historicamente engajado na luta feminista.

De acordo com a Polícia Militar, Simone foi morta a tiros pelo próprio namorado em Sorocaba, cidade onde ambos viviam. As primeiras investigações indicam que José Júlio Ferreira Cintra de Almeida Prado Júnior matou a namorada e depois cometeu suicídio. Nas reportagens sobre o caso, pessoas próximas ao casal informaram que José Júlio tinha um histórico de atitudes de ciúmes e essa pode ter sido a causa da tragédia, que deixou três crianças órfãs.

Não há cálculos sobre o número de órfãos da violência doméstica no Brasil. Mas, o Mapa da Violência, elaborado a partir de dados do Ministério da Saúde, revela que o Brasil ocupa hoje a 5ª posição no ranking de feminicídio, em um grupo de 83 países. São 4,8 assassinatos para cada grupo de 100 mil mulheres. O número de estupros passa de 500 mil por ano em todo o país. No caso dos assassinatos, 55,3% foram cometidos no ambiente doméstico e 33,2% dos assassinos eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

A violência de gênero é considerada um problema de saúde pública por afetar mulheres em diversos países; no caso do Brasil trata-se de uma epidemia. O assassinato como o de Simone costuma ser precedido de agressões verbais e crises de ciúmes, que abalam a autoestima feminina e impedem seu progresso.

A conscientização, o debate sobre as questões de gênero e a luta para combater e punir toda e qualquer forma de machismo precisam ser priorizadas nas escolas, no ambiente doméstico, nas mídias e redes sociais todos os dias.

Para enfrentar a violência, o país ganhou a Lei do Feminicídio. Assinada no dia 09 de março de 2015 pela presidenta Dilma Rousseff, a lei estabelece que o assassinato de mulheres pode ser considerado homicídio qualificado e tratado como crime hediondo, o que dobra a pena.

Lamentavelmente neste início de 2018, quase um século depois que a filósofa Simone de Beauvoir popularizou a bandeira do feminismo, a igualdade entre homens e mulheres ainda é um ideal longe de ser assimilado pela nossa sociedade.

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A professora Maria Izabel Azevedo Noronha, Bebel, é presidente da APEOESP
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Matéria da Carta Capital- 9 de Janeiro de 2018

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